Foi mais uma peça na minha vida. Desta feita, um grande drama do Garcia Llorca. A minha personagem, a governanta La Poncia, pretendia ser o contraponto da ditadora Bernarda mas sem nunca deixar os seus modos rudes, duros e de alguma maneira pobres.
Foi uma peça muito dura para mim. Desta vez não foi tão fácil nem tão ligeiro como é costume. Foi muito duro para mim conseguir decorar um papel enorme num mês. Foi muito muito duro para mim entrar "a meio" de uma encenação e perder o início - a dramaturgia, os ensaios de leitura, o começo de tudo. Foi muito duro para mim a convivência num grupo que não conhecia. Foi muito duro para mim viver na desorganização e indisciplina sem poder (ou querer) dizer nada. Foi muito duro para mim conseguir conciliar a minha vida profissional, o curso que estou a fazer e esta peça.
O mais fácil de tudo foi encantar-me com a personagem La Poncia. A composição da personagem deu-me muito gozo. Confesso que, para mim, o mais importante e que dá mais "pica" é mesmo o tempo de estudo e de composição até ao espectáculo, sendo a estreia o ponto alto. Depois disso é só mesmo a decair.
Gostei muito da encenação e do encenador. É muito bonita a encenação do João Nuno Esteves. Na direcção já não me senti tão bem, nem tão apoiada. Mas talvez assim tivesse sido melhor - tive espaço para criar a minha personagem e imaginar uma La Poncia que me fizesse sentido. Que me lembre nunca vi outra La Poncia, por isso não tenho ponto de comparação, mas talvez tenha sido melhor assim - é a minha personagem e é só minha... pronto!
Muitas vezes me perguntam porque mantenho esta actividade como amadora e porque não tentei ser profissional. Normalmente sorrio e evito a pergunta, porque tenho alguma vergonha na minha resposta. Algumas vezes me passou essa ideia pela cabeça mas sempre a abandonei. Nunca me imaginei a ser uma profissional porque sempre achei que o encanto se iria perder. Sempre pensei que fazê-lo profissionalmente iria ser menos aliciante e tentador e que me daria muito menos gozo. Se tenho que fazer alguma coisa por obrigação, lá se vai metade da piada.
Mas tenho dúvidas sobre isso... mesmo muitas dúvidas. E se tentasse o teatro como profissão? Gosto muito do que faço profissionalmente mas e se gostasse ainda mais de ser actriz profissional? E se não gostasse? E se fosse uma desilusão? E se... ? ? ? ? ?
Bjs




