segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

MMXV - Dia 23 (Austrália, Sydney)

Austrália - Sydney

MMXV - Dia 22 (O último abraço que me dás, António Lobo Antunes)

Mais um texto absolutamente fantástico do meu escritor favorito.


O último abraço que me dás

Ali, na sala de quimioterapia, jamais escutei um gemido, jamais vi uma lágrima. Somente feições sérias, de uma seriedade que não topei em mais parte alguma, rostos com o mundo inteiro em cada prega, traços esculpidos a fogo na pele

O último abraço que me dás
Para Luís Costa
O lugar onde, até hoje, senti mais orgulho em ser pessoa foi o Serviço de Oncologia do Hospital de Santa Maria, onde a elegância dos doentes os transforma em reis. Numa das últimas vezes que lá fui encontrei um homem que conheço há muitos anos. Estava tão magro que demorei a perceber quem era. Disse-me
- Abrace-me porque é o último abraço que me dá
durante o abraço
- Tenho muita pena de não acabar a tese de doutoramento
e, ao afastarmo-nos, sorriu. Nunca vi um sorriso com tanta dor entre parêntesis, nunca imaginei que fosse tão bonito.
Com o meu corpo contra o dele veio-me à cabeça, instantâneo, o fragmento de um poema do meu amigo Alexandre O'Neill, que diz que apenas entre os homens, e por eles, vale a pena viver. E descobri-me cheio de respeito e amor. Um rapaz, de cerca de vinte anos, que fazia quimioterapia ao pé de mim, numa determinação tranquila:
- Estou aqui para lutar
e, por estranho que pareça, havia alegria em cada gesto seu. Achei nele o medo também, mais do que o medo, o terror e, ao mesmo tempo que o terror, a coragem e a esperança.
A extraordinária delicadeza e atenção dos médicos, dos enfermeiros, comoveu-me. Tropecei no desespero, no malestar físico, na presença da morte, na surpresa da dor, na horrível solidão da proximidade do fim, que se me afigura de uma injustiça intolerável. Não fomos feitos para isto, fomos feitos para a vida. O cabelo cresce-me de novo, acho-me, fisicamente, como antes, estou a acabar o livro e o meu pensamento desvia-se constantemente para a voz de um homem no meu ouvido
- Acabar a tese de doutoramento, acabar a tese de doutoramento, acabar a tese de doutoramento
porque não aceito a aceitação, porque não aceito a crueldade, porque não aceito que destruam companheiros. A rapariga com a peruca no braço da cadeira. O senhor que não olhava para ninguém, olhava para o vazio. Ali, na sala de quimioterapia, jamais escutei um gemido, jamais vi uma lágrima. Somente feições sérias, de uma seriedade que não topei em mais parte alguma, rostos com o mundo inteiro em cada prega, traços esculpidos a fogo na pele. Vi morrer gente quando era médico, vi morrer gente na guerra, e continuo sem compreender. Isso eu sei que não compreenderei. Que me espanta. Que me faz zangar. Abrace-me porque é o último abraço que me dá: é uma frase que se entenda, esta? Morreu há muito pouco tempo. Foda-se. Perdoem esta palavra mas é a única que me sai. Foda-se. Quando eu era pequeno ninguém morria. Porque carga de água se morre agora, pelo simples facto de eu ter crescido? Morra um homem fique fama, declaravam os contrabandistas da raia. Se tivermos sorte alguém se lembrará de nós com saudade. De mim ficarão os livros. E depois? Tolstoi, no seu diário: sou o melhor; e depois? E depois nada porque a fama é nada.
O que é muito mais do que nada são estas criaturas feridas, a recordação profundamente lancinante de uma peruca de mulher num braço de cadeira. Se eu estivesse ali sozinho, sem ninguém a ver-me, acariciava uma daquelas madeixas horas sem fim. No termo das sessões de quimioterapia as pessoas vão-se embora. Ao desaparecerem na porta penso: o que farão agora? E apetece-me ir com eles, impedir que lhes façam mal:
- Abrace-me porque talvez não seja o último abraço que me dá.
Ao M. foi. E pode afigurar-se estranho mas ainda o trago na pele. Durante quanto tempo vou ficar com ele tatuado? O lugar onde, até hoje, senti mais orgulho em ser pessoa foi o Serviço de Oncologia do Hospital de Santa Maria onde a dignidade dos escravos da doença os transforma em gigantes, onde só existem, nas palavras do Luís, Heróis.
Onde só existem Heróis. Não estou doente agora. Não sei se voltarei a estar. Se voltar a estar, embora não chegue aos calcanhares de herói algum, espero comportar-me como um homem. Oxalá o consiga. Como escreveu Torga o destino destina mas o resto é comigo. E é. Muito boa tarde a todos e as melhoras: é assim que se despedem no Serviço de Oncologia. Muito boa tarde a todos e até já, mesmo que seja o último abraço que damos.

MMXV - Dia 21 (Keep Calm - Read a Book)


terça-feira, 20 de janeiro de 2015

MMXV - Dia 17 (Taken3)

Isto de cinema anda mal por estes lados em 2015.

Desta vez foi o Taken3.
Não vi os dois primeiros e só fui porque a Inês ficou entusiasmadissima e queria muito ver o filme. Cá de fim-de-semana, fiz-lhe a vontade. Confesso que também fiquei um pouco curiosa com tanto entusiasmo.
Lá fomos!
Que desilusão. Não consegui gostar nadinha do filme. 30 minutos depois já estava quase a dormir.
Muitas perseguições, carros a estoirar e TIROS... muitos TIROS.

Irritam-me estes filmes.
O herói tem uma arma pequenina, luta com dezenas de mauzões, escapa de imensas rajadas de metralhadoras ileso e... dá um tiro e mata-os logo!
Incrivel.
Achei a história pobre, o filme muito pouco verosímel  e a representação... nada de especial.



domingo, 18 de janeiro de 2015

MMXV - Dia 16 (Oscars 2015 - Nomeados "Melhores Actor/Actriz")





Actor

    Steve Carell
    Foxcatcher

    Bradley Cooper
    American Sniper

    Benedict Cumberbatch
    The Imitation Game

    Michael Keaton
    Birdman or (The Unexpected Virtue of Ignorance)

    Eddie Redmayne
    The Theory of Everything


Actriz

    Marion Cotillard
    Two Days, One Night

    Felicity Jones
    The Theory of Everything

    Julianne Moore
    Still Alice

    Rosamund Pike
    Gone Girl

    Reese Witherspoon
    Wild


Actor Secundário

    Robert Duvall
    The Judge

    Ethan Hawke
    Boyhood

    Edward Norton
    Birdman or (The Unexpected Virtue of Ignorance)

    Mark Ruffalo
    Foxcatcher

    J.K. Simmons
    Whiplash


Actriz Secundária

 
    Patricia Arquette
    Boyhood

    Laura Dern
    Wild

    Keira Knightley
    The Imitation Game

    Emma Stone
    Birdman or (The Unexpected Virtue of Ignorance)

    Meryl Streep
    Into the Woods

MMXV - Dia 15 (Oscars 2015 - Nomeados "Melhor Filme")



Best Picture

    American Sniper
    Clint Eastwood, Robert Lorenz, Andrew Lazar, Bradley Cooper and Peter Morgan

    Birdman or (The Unexpected Virtue of Ignorance)
    Alejandro G. Iñárritu, John Lesher and James W. Skotchdopole

    Boyhood
    Richard Linklater and Cathleen Sutherland

    The Grand Budapest Hotel
    Wes Anderson, Scott Rudin, Steven Rales and Jeremy Dawson

    The Imitation Game
    Nora Grossman, Ido Ostrowsky and Teddy Schwarzman


    Selma
    Christian Colson, Oprah Winfrey, Dede Gardner and Jeremy Kleiner


    The Theory of Everything
    Tim Bevan, Eric Fellner, Lisa Bruce and Anthony McCarten

    Whiplash
    Jason Blum, Helen Estabrook and David Lancaster