Mais um texto absolutamente fantástico do meu escritor favorito.
O último abraço que me dás
Quinta, 12 Dez
Ali,
na sala de quimioterapia, jamais escutei um gemido, jamais vi uma
lágrima. Somente feições sérias, de uma seriedade que não topei em mais
parte alguma, rostos com o mundo inteiro em cada prega, traços
esculpidos a fogo na pele

Para Luís Costa
O
lugar onde, até hoje, senti mais orgulho em ser pessoa foi o Serviço de
Oncologia do Hospital de Santa Maria, onde a elegância dos doentes os
transforma em reis. Numa das últimas vezes que lá fui encontrei um homem
que conheço há muitos anos. Estava tão magro que demorei a perceber
quem era. Disse-me
- Abrace-me porque é o último abraço que me dá
durante o abraço
- Tenho muita pena de não acabar a tese de doutoramento
e, ao afastarmo-nos, sorriu. Nunca vi um sorriso com tanta dor entre parêntesis, nunca imaginei que fosse tão bonito.
Com
o meu corpo contra o dele veio-me à cabeça, instantâneo, o fragmento de
um poema do meu amigo Alexandre O'Neill, que diz que apenas entre os
homens, e por eles, vale a pena viver. E descobri-me cheio de respeito e
amor. Um rapaz, de cerca de vinte anos, que fazia quimioterapia ao pé
de mim, numa determinação tranquila:
- Estou aqui para lutar
e,
por estranho que pareça, havia alegria em cada gesto seu. Achei nele o
medo também, mais do que o medo, o terror e, ao mesmo tempo que o
terror, a coragem e a esperança.
A extraordinária delicadeza e
atenção dos médicos, dos enfermeiros, comoveu-me. Tropecei no desespero,
no malestar físico, na presença da morte, na surpresa da dor, na
horrível solidão da proximidade do fim, que se me afigura de uma
injustiça intolerável. Não fomos feitos para isto, fomos feitos para a
vida. O cabelo cresce-me de novo, acho-me, fisicamente, como antes,
estou a acabar o livro e o meu pensamento desvia-se constantemente para a
voz de um homem no meu ouvido
- Acabar a tese de doutoramento, acabar a tese de doutoramento, acabar a tese de doutoramento
porque
não aceito a aceitação, porque não aceito a crueldade, porque não
aceito que destruam companheiros. A rapariga com a peruca no braço da
cadeira. O senhor que não olhava para ninguém, olhava para o vazio. Ali,
na sala de quimioterapia, jamais escutei um gemido, jamais vi uma
lágrima. Somente feições sérias, de uma seriedade que não topei em mais
parte alguma, rostos com o mundo inteiro em cada prega, traços
esculpidos a fogo na pele. Vi morrer gente quando era médico, vi morrer
gente na guerra, e continuo sem compreender. Isso eu sei que não
compreenderei. Que me espanta. Que me faz zangar. Abrace-me porque é o
último abraço que me dá: é uma frase que se entenda, esta? Morreu há
muito pouco tempo. Foda-se. Perdoem esta palavra mas é a única que me
sai. Foda-se. Quando eu era pequeno ninguém morria. Porque carga de água
se morre agora, pelo simples facto de eu ter crescido? Morra um homem
fique fama, declaravam os contrabandistas da raia. Se tivermos sorte
alguém se lembrará de nós com saudade. De mim ficarão os livros. E
depois? Tolstoi, no seu diário: sou o melhor; e depois? E depois nada
porque a fama é nada.
O que é muito mais do que nada são estas
criaturas feridas, a recordação profundamente lancinante de uma peruca
de mulher num braço de cadeira. Se eu estivesse ali sozinho, sem ninguém
a ver-me, acariciava uma daquelas madeixas horas sem fim. No termo das
sessões de quimioterapia as pessoas vão-se embora. Ao desaparecerem na
porta penso: o que farão agora? E apetece-me ir com eles, impedir que
lhes façam mal:
- Abrace-me porque talvez não seja o último abraço que me dá.
Ao
M. foi. E pode afigurar-se estranho mas ainda o trago na pele. Durante
quanto tempo vou ficar com ele tatuado? O lugar onde, até hoje, senti
mais orgulho em ser pessoa foi o Serviço de Oncologia do Hospital de
Santa Maria onde a dignidade dos escravos da doença os transforma em
gigantes, onde só existem, nas palavras do Luís, Heróis.
Onde só
existem Heróis. Não estou doente agora. Não sei se voltarei a estar. Se
voltar a estar, embora não chegue aos calcanhares de herói algum, espero
comportar-me como um homem. Oxalá o consiga. Como escreveu Torga o
destino destina mas o resto é comigo. E é. Muito boa tarde a todos e as
melhoras: é assim que se despedem no Serviço de Oncologia. Muito boa
tarde a todos e até já, mesmo que seja o último abraço que damos.