sábado, 27 de novembro de 2010

ONNI Objecto Náutico não identificado

Fui ver na passada 5ª feira ao Chapitô e gostei muito. Uma história muito bem imaginada com uma encenação primorosa e interpretações muito boas.
Não percam, se puderem!


sábado, 20 de novembro de 2010

Tai Chi Taoista - Orangeville - a experiência



Todos os relatos de quem tinha estado em Orangeville me aguçavam a curiosidade. É a sede da Associação de Tai Chi Taoista e é o lugar que o Mestre Moy quis que fosse a casa mãe de todos os praticantes. Todos, sem excepção, falavam e transmitiam experiências que me faziam a cada dia querer muito ir lá. Fui ouvindo, nos últimos 2 anos, as pequenas histórias sobre Orangeville e foi crescendo em mim a curiosidade e, principalmente, a certeza de querer também participar e ver com os meus próprios olhos. Não tinha propriamente descrença nos relatos, mas ficava sempre um pouco céptica. A experiência que relatavam era muito distante da realidade de Portugal… A sementinha da “vontade de ir” começou com uma conversa deliciosa e longa com a Carmen Capilla. Durante um estágio em Lisboa a Carmen falou-nos imenso de Orangeville e de como lhe era agradável voltar lá sempre que podia. A sementinha foi crescendo e a oportunidade surgiu este ano. Muito por “culpa” e insistência do Luís Neves e um pouco “em cima” da hora tomei a decisão de ir a Orangeville às comemorações do 40º aniversário e ao CIT Week (Continuous Instructors Trainning), isto porque o estágio foi aberto e estava disponível a todos os que quisessem participar. E pronto, foi desta!

Sexta-feira, 06 de Agosto de 2010
A chegada a Orangeville foi de noite, pelo que o impacto não foi muito grande. Percebi que se tratava de uma quinta e, assim que chegámos, pediram-nos para ir jantar e fazer o “check-in”. Depois de um voo esgotado e esgotante da SATA, a comida pareceu-me divinal. A viagem do aeroporto para a quinta também tinha sido excelente. Numa carrinha com outros 7 participantes que também tinham chegado naquela altura, eu e o João lá chegámos a Orangeville. Depois do jantar, fomos fazer o check-in. Estava tudo muitíssimo bem organizado e foi-me dada uma folha de registo onde constava, para além do número do meu quarto, todas as “regras” que deveria observar durante a minha estadia; iria ficar nas Family Meditation suites, no quarto 72 e num colchão no chão.

Consegui, com a ajuda do João e do Luís, encontrar o meu quarto. Nele já se encontrava uma senhora neo-zelandesa, a Brenda. Já estava instalada e eu fiz o mesmo… desfazer malas, fazer a cama e a voltar à sala de refeições onde encontrei a Carmen e o Nito. Foi bom encontrar 2 caras conhecidas que, como sempre, me receberam de uma maneira amistosa e simpática. A conversa estava boa mas a viagem tinha sido muito cansativa. Com cinco horas de diferença horária, um voo complicado e um final de uma semana de trabalho muito intensa, estava pronta para uma boa noite de sono. E assim foi. Literalmente, caí na cama que me pareceu ter o melhor colchão do Mundo !

Sábado, 07 de Agosto de 2010
Este primeiro dia foi bastante “complicado”. O estágio CIT apenas começa no Domingo dia 08 e este foi o dia de adaptação a uma realidade diferente. O dia começou cedo, muito cedo. Às 7.30h da manhã já estava a tomar o pequeno almoço e às 10h a começar o primeiríssimo ensaio do Dragão. Foi uma experiência que me pareceu muito aliciante ainda em Lisboa e que lá se concretizou de um modo espectacular. 


Um grupo de pessoas que não se conheciam e que nunca tinham antes mexido e manobrado um Dragão, encontraram-se com a Julie para aprender as manobras da “dança” do Dragão. Fiquei aterrada e perplexa… o objectivo era muito claro – fazer duas paradas (na 5ª feira seguinte e no sábado) em Toronto. Pareceu-me uma ideia completamente kafkiana e os objectivos perfeitamente irreais e inatingíveis. Estou em crer, pelas caras em redor, que todos os que estávamos ali pensámos o mesmo. Mas “atirámo-nos” ao trabalho e aquelas duas horas de ensaio antes do almoço e as duas horas após o almoço foram divertidíssimas e muito efectivas. Praticámos muitos danyous e muitos toyus para pegar e içar o Dragão; aprendemos a conhecermo-nos uns aos outros e a ajudar os mais cansados. Ao fim de um dia de treino, foi para mim surpreendente ver como o trabalho em equipa funciona e como, sem ele, não há movimento, força ou vontade. Neste pequeno exercício, que no início me parecia só físico pude ter a certeza que uma das “regras” que o Mestre Moy passou à Associação – o “Work Together” é a essência do Tai Chi Taoista e de tudo o que o circunda.
No fim do dia de Sábado éramos um grupo que conseguia manobrar um Dragão!! UAU

Este foi também o dia da descoberta. Explorei a quinta com o Luís e o João. Visitámos os templos que me surpreenderam bastante. Há um mais pequeno onde estão expostas as divindades por ano de nascimento e onde descobri que o meu ano é o ano do Dragão de Madeira. No templo maior estão várias figuras sendo as centrais Buda , Lao Tzu e Confúcio. É neste templo que se fazem os cânticos matinais, por volta das 7.30h e aos quais foi formidável ter ido. Mas estou a adiantar-me no relato… No sábado ainda fizemos um dos rituais que foi prestar homenagem às cinzas do Mestre Moy. No Columbário estão depositadas as suas cinzas, bem como de outros elementos já falecidos da Associação. É  um lugar muito tranquilo num sítio reservado da quinta e que parece feito à medida para um recolhimento necessário no meio de muita gente.

No sábado foi também ainda dia de trabalho. O Luís Neves tem uma tarefa dura este ano em Orangeville. Ele voluntarizou-se para reconstruir um caminho de pedras que lhe tem dado um trabalho brutal. É muito engraçado observar o empenho com que pessoas como o Luís, o Raymod e o Ian trabalham. É uma tarefa dura e que requer algum esforço físico mas a alegria foi tão grande que se tornou quase hilariante.
“O Caminho” passou a ser o ponto de encontro de alguns de nós que ajudámos o esforçado grupo luso-irlandês em acabar o trabalho a tempo do começo do estágio no Domingo dia 08.

O meu quarto tem mais duas ocupantes – a MariLuz de Espanha, que já conhecia do estágio de Madrid e a Monika da Polónia. O quarto não é muito grande e a corrida matinal para a casa de banho promete ser divertida.

Domingo, 08 de Agosto de 2010
É dia de início de CIT. Às 10h da manhã começa o estágio mas antes, como habitualmente, ensaio de dragão. A rotina vai instaurar-se até ao 1º grande dia – a 1ª actuação do Dragão na quinta-feira dia 12-08.
Estamos instalados numa tenda à entrada da quinta. Era impossível colocar 650 participantes na sala de práticas. A tenda é enorme e, mesmo assim, parece-me pequena. Somos muitos e está a chover. Para começar o estágio fizemos 2 formas munidos dos nossos chapéus-de-chuva. É engraçado de ver e também de fazer Tai Chi com chapéu-de-chuva. Mais uma prova que não há nada que nos possa impedir de praticar e mostrar o nosso Tai Chi. Nem o mau tempo!
Os instrutores são o Tony Qwan, a Karen e o Sean, acompanhados do Dr Bruce MacFarleane. Confesso que costumava ler os artigos dele no blogue e não percebia quase nada. A explicação que ele foi fazendo “ao vivo” e “ao momento” era muito interessante. Acho que vou dar mais atenção aos artigos!!!
A rotina do estágio vai ser sempre a mesma. Três sessões diárias; de manhã das 10h às 12.30h; de tarde das 14.30h às 18h ; de noite das 20h às 22h. Nos intervalos do estágio, a prática do Dragão: das 8.30h às 10h e das 13h às 14.30h.
Vai ser uma semana extenuante… digo eu!

O Tony é fabuloso. É chinês e não fala inglês. Faz-se acompanhar de uma intérprete, mas mesmo assim não fala muito. O Tai Chi dele é diferente. Os movimentos que ele faz são os mesmos que todos conhecemos desde o 1º dia que começamos a fazer Tai Chi mas, feitos por ele parecem completamente diferentes. Mais abertos, mais fluidos, mais leves… Não sei explicar mas é até mais leve vê-lo a executar os movimentos.
Neste estágio o que fizemos foi a desconstrução absoluta dos movimentos fundacionais. Todas as regras que conhecíamos foram “anuladas”. No 1º movimento fundacional, por exemplo, o focus foi no rodar do pulso. O pulso é que deve rodar e muito depressa. Não houve nenhum dos fundacionais que não fossem feitos nestes 5 dias completamente de “pernas para o ar”. Nós temos as 1001 maneiras de cozinhar bacalhau e no Tai Chi Taoista há 1001 maneiras diferentes de praticar os movimentos. E sempre todas certas. Nunca estamos errados. Isso foi também uma das coisas que aprendi neste estágio. Não há certo nem errado; não há modos bonitos ou correctos de fazer os movimentos. Temos que acreditar neles, no modo como os fazemos e entregarmo-nos a eles de alma e coração. Se a alma, o coração e o físico se sentem bem, então é porque estamos a fazer bem!

O Sean começou por dizer que o mote do estágio este ano era “limpar a mente”. Esqueçam tudo o que vos ensinaram antes, esvaziem a cabeça e abram-se para fazer algo completamente diferente.

De segunda-feira, 09 de Agosto de 2010 a quarta-feira, 11 de Agosto de 2010-10-12
Muitas coisas aconteceram nestes 3 dias de estágio que vou tentar condensar porque o relato já vai longo…

  1. Danyous, muitos danyous. Nunca pensei que conseguisse fazer tantos danyous. Na primeira vez, quando eu já estava estafada e alguém gritou 200 pensei que íamos ficar por ali. Em Portugal costumamos ouvir “ok, só mais 3”. O Tony foi radical e disse “ok, só mais 100”. Cem??? Não ia conseguir. Era impossível. Não me posso matar logo no primeiro dia. Mas o que é certo é que olhei à volta e ninguém desistia. E eu ia desistir? Essa agora, não! Continuei até que ouvi alguém dizer “ENOUGH”. Fizéramos 300 danyous na segunda-feira de manhã e, mais uma vez pensei que estava tudo feito. Não! Em quase todas as sessões repetimos os 300 danyous. Com cerca de 900 danyous por dia, parecia que não ia aguentar, mas não. Nem cansada estava. Como era possível? Mais uma grande lição que aprendi. Ou melhor, já a sabia mas tenho-a praticado pouco ultimamente. Quando a nossa alma e coração está disposta a fazer uma coisa, não há cansaço físico que a detenha!
  2. Os toyus também foram desconstruídos. O Tony deu uma reviravolta nos toyus também. Como éramos muitos a fazer o estágio, fomos divididos por grupos mais pequenos, cada um com o seu instrutor. Cada um dos instrutores era “guiado” pelo Tony e transmitia-nos as alterações aos movimentos que ele queria que fizéssemos. No caso dos toyus, cada um dos instrutores esteve a ser corrigido à nossa frente. O Tony tinha uma espécie de batuta na mão e ia dando pancadinhas para corrigir os movimentos de cada um. Parecia um maestro a afinar um a um os instrumentos de uma orquestra para o concerto.
  3. Os primeiros 17 movimentos da forma também foram alvo de “cambalhota” por parte do Tony. Mais uma vez conseguiu que fizéssemos estes movimentos de um modo completamente diferente, no sentido , na orientação , no estiramento , em tudo! Já estou a ser repetitiva mas a verdade é que esta desconstrução foi o mote do estágio! Lembrei-me muito da última edição de “A Montanha”: é preciso que tudo mude para que tudo fique como está. Agora percebi o significado!
  4. A solidariedade é também algo muito comum em Orangeville. Mostra-se nos pequenos gestos ou atitudes. É alguém que não conhecemos que se oferece para nos levar ao multibanco mais próximo (cerca de 20m de carro) só porque outro alguém referiu que precisávamos de levantar dinheiro. É alguém que te vai buscar um café porque lhe parecemos triste ou cansada. É alguém que simplesmente se senta ao teu lado sem dizer nada a sorrir. É engraçado como estes pequenos gestos, na altura, parecem tão naturais e que olhados agora com o devido distanciamento, se tornaram tão importantes.
  5. A necessidade de estar só no meio de tanta confusão. Foi outro dos meus sentimentos nesta semana. A certa altura achei que precisava de estar completamente sozinha nem que fosse por ½ hora. Fiz uma passeata revigorante no magnífico bosque da quinta que me recarregou as baterias para o resto da semana.
  6. A organização de Orangeville é absolutamente fascinante. Voluntariei-me para a cozinha e foi uma experiência e tanto. Na primeira vez perguntei o que era preciso fazer e alguém disse para eu agarrar num pano da loiça e limpar uns tachos e recipientes enormes que estavam a ser lavados. Como quem entra numa cozinha pela primeira vez, comecei a perguntar o sítio das coisas. Lá me foram dizendo e uns 10m depois já estava em plena labuta perfeitamente autónoma. A certa altura começaram a fazer-me as mesmas perguntas que eu já tinha feito. Olhei à volta e já era a mais “antiga” no posto. Era eu que dava as indicações aos “caloiros”. Engraçado. A transmissão dos conhecimentos é feita de um modo muito natural. É assim que se aprende e que se ensina… Outra lição que aprendi!
  7. Uma das sessões do estágio foi preenchida por uma discussão em grupo. O tema era “Como é que a Associação conseguiu chegar ao estádio de empreender uma festa de aniversário para mais de 1.000 pessoas” e a discussão foi engraçada. Cada um dos participantes do meu grupo contou a sua história no Tai Chi e na Associação. Duas delas chamaram-me a atenção, a do Giles um quebequiano e a do Paul o instrutor inglês. É curioso como cada um de nós tem uma história e uma ligação diferente à Associação e é essa diversidade que faz a diferença.
  8. As reuniões a que fomos assistir e que foram várias. Cada País deu a conhecer a sua realidade e o seu momento. O que de melhor e pior acontece na associação. Na Europa há muitos Países com muita dinâmica e a fazer muitas coisas.
  9. O vídeo do 40º aniversário foi mostrado num ecrã grande na sala de práticas. Confesso que pensava que iria ser feito com mais criatividade mas não deixou de ser simpático ver os tugas a fazer nuvens. Foi muito elogiado o padrão dos descobrimentos e nem se notou o João ser o único presidente de gravata!


Quinta-feira, 12 de Agosto de 2010
Foi dia de comemoração em Dundas Square em Toronto. Pela primeira vez na minha vida participei numa parada. 
Só não tinha bandeirinha porque estava agarrada a uma perna do Dragão. Foi uma experiência fantástica. Fizémos Tai Chi numa das praças mais movimentadas de Toronto; andámos a movimentar um Dragão numa avenida cheia de gente a ver; fomos transportados de Orangeville para Toronto em autocarros escolares que só tinha visto em filmes americanos… enfim só experiências novas e muito engraçadas.
Gostei muito de ter participado na dança do Dragão. Gostei muito do ambiente de camaradagem e de convívio que todos os participantes tiveram. Claro que não os conheci a todos porque éramos para cima de 100 mas os mais próximos foram uma simpatia: a Yolanda, a Jos, a Samantha, o Raymond, a Felicity e todos os outros foram uns grandes companheiros de Dragão.

Sexta-feira, 13 de Agosto de 2010
Foi dia de preparativos do awareness day de sábado. Para além das várias assembleias gerais a que assistimos, foi dia de acarretar mesas e cadeiras para o grande evento.

Sábado, 14 de Agosto de 2010
O grande dia tinha chegado. O objectivo era reunir 40.000 associados em todo o Mundo e fazer uma forma ao mesmo tempo. Em Toronto era às 10h da manhã, em Portugal seria às 15h e na Nova Zelândia às 2h da manhã. O entusiasmo e a expectativa eram muito altos. Todos queríamos participar, todos queríamos dar um “toque” àquele dia.

O evento era em Ohio Road em Toronto num dos centros da Associação. Estávamos para cima de 1.800 pessoas e às 10h da manhã em ponto fizemos uma forma. Foi magnífico. Será que a Terra tremeu? Em Portugal o grupo estava reunido na expo sob a pala do Siza Vieira e mantivemos o contacto por SMS.
Depois em Toronto, mais uma parada com a dança dos dois Dragões. Mais uma vez foi espectacular e delirante.


Se houve coisa que me agradou fazer em Orangeville foi a dança do Dragão. Senti-me incluída num grupo e a trabalhar de igual para igual no grupo. Acho que foi das actividades que mais prazer me deram fazer na Associação até hoje.




O dia acabou com um banquete e, como muitos de nós partiam no dia seguinte, com despedidas. Foi o tempo dos últimos abraços e da troca dos endereços de e-mail. Era a despedida de uma semana cheia de emoções e de grande actividade. A festa estava quase quase a acabar e todos nós queríamos saborear tudo até ao último minuto.


Domingo, 15 de Agosto de 2010
O dia da partida. Os festejos continuavam e apenas alguns, muito poucos, ficámos em Orangeville à espera de boleia para o aeroporto. Foi um dia calmo que passei com a Ela e em que ajudei nas pequenas tarefas de bastidores: dobrar roupa que tinha vindo seca da lavandaria, lavar a loiça do pequeno almoço, ajudar a improvisar um almoço, enfim tudo o que fosse necessário. Foi a despedida o Columbário, foi o último passeio no lago, foi o último chá em Orangeville.

Despedi-me com a certeza de que os princípios da Associação ainda estão presentes em Orangeville!



sábado, 13 de novembro de 2010

A Casa de Bernarda Alba




A Casa de Bernarda Alba
Federico Garcia Lorca , 1936

A Casa de Bernarda Alba é uma história trágica e que representa e simboliza a ditadura de Franco em Espanha, regime instituído na altura em que foi escrita.
É a última peça de uma trilogia de dramas do escritor espanhol Federico Garcia Lorca. Escrita em 1936 e seguiu-se a Bodas de Sangue de 1933 e a Yerma de 1934.

Em A casa de Bernarda Alba, seu único texto de teatro escrito em prosa, Lorca recorre ao simbolismo para realizar uma nova investida no teatro. Bernarda Alba, personagem central do texto, é uma matriarca dominadora que mantém as cinco filhas, Angústia, Madalena, Martírio, Amélia e Adela sob vigilância implacável, transformando a casa onde vivem, em um pequeno povoado na Espanha, em um caldeirão de tensões prestes a explodir a qualquer momento.
Com a morte de seu segundo marido, Bernarda decretara um luto de oito anos e submete suas filhas à reclusão dentro das frias paredes de sua casa e das janelas cerradas. Duas das moças, porém, apaixonadas por um mesmo galanteador das redondezas, um rapaz de vinte e cinco anos chamado Pepe Romano, desencadeiam no meio daquele luto uma disputa cruel e perigosa para conquistarem o amor daquele mesmo homem, com conseqüências trágicas.
A construção central do drama de Lorca – a casa na qual uma família de mulheres solitárias é controlada por uma mãe centralizadora e tirânica – teria sido inspirada por uma família da pequena cidade granadina de Valderrubio, onde os pais do poeta tinham uma propriedade rural e conheceram certa Frasquita Alba, mãe de quatro filhas às quais comandava com mão de ferro e um homem de nome Pepe de la Romilla, que teria se casado com a filha mais velha de Frasquita por seu dote e, posteriormente, se envolvido com a mais jovem das irmãs. Dessa história real, Lorca apropriou-se da ideia de uma casa sem homens para compor o tema central de La Casa de Bernarda Alba, qual seja o lugar da mulher na sociedade espanhola. 

Finalizada exactamente trinta dias antes de morrer assassinado, em 19 de agosto de 1936, por forças do governo durante a Guerra Civil Espanhola, A Casa de Bernarda Alba, última peça teatral escrita pelo poeta espanhol, teve sua montagem de estreia apenas em 1945, em Buenos Aires, cidade na qual Lorca passara cinco meses em 1933, e só viria a ser encenada na Espanha no ano de 1964.

Vai agora à cena pelo Teatro Som das Letras no próximo dia 3 de Dezembro!

Bjs

Portugal - Eurovisão - 1982

1982
Canção: Bem Bom
Intérprete: Doce


Canção ganhadora

 Germany"Ein bißchen Frieden"Nicole

Portugal - Eurovisão - 1981

1981
Canção: Playback
Intérprete: Carlos Paião


terça-feira, 9 de novembro de 2010

Eu tenho a minha loucura !

Cântico negro

"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!